O Fim de onde Partimos – Capítulo 4

O MONGE

O que a Mulher de Branco me falou no não-lugar tornou-se uma profecia de carne e osso. O retorno à vida não foi um milagre indolor; foi uma negociação brutal com a biologia. Eu ficaria com sequelas.

Minha perna esquerda, outrora firme, tornara-se uma estranha. Eu não conseguia senti-la completamente; havia áreas de dormência, como se a pele fosse feita de borracha, intercaladas com choques elétricos súbitos. Ela falhava sem aviso, dobrando-se sob meu peso, transformando o simples ato de caminhar até o banheiro em uma expedição de risco.

Meu pulmão, queimado pela hipóxia e pela intubação, doía a cada inspiração profunda. Era uma dor aguda, pontiaguda, um lembrete constante de que o ar é um privilégio, não um direito. Meus sentidos, antes confiáveis, haviam sido recalibrados de forma caótica. Minha visão oscilava, minha audição captava zumbidos que ninguém mais ouvia, meu paladar transformava comida em cinza ou metal.

Minha memória, aquela ferramenta afiada que me permitira devorar livros de medicina, agora era um queijo suíço. Eu esquecia nomes, perdia o fio da meada no meio de frases, entrava em cômodos sem saber o porquê. E havia o tremor. Um tremor fino, persistente, em minha coordenação motora, que fazia minha letra parecer a de uma idosa e transformava segurar uma xícara de chá em um exercício de concentração zen.

Os meses seguintes se arrastaram como um longo inverno. Foi um processo intenso, exaustivo e humilhante de reabilitação. Fisioterapia dolorosa, exercícios de fortalecimento que me faziam chorar de frustração, repouso forçado que testava minha paciência. Eu estava reaprendendo a habitar o veículo que eu mesma havia tentado destruir.

Mas, enquanto meu corpo lutava para se reconectar, minha mente estava em outro lugar. Havia um pensamento, uma dúvida, uma obsessão que pulsava mais forte que qualquer dor física: O que acabou de aconteceu?

Quem era aquela mulher? Era uma alucinação gerada pela falta de oxigênio no lobo temporal? Era um arquétipo junguiano projetado pelo meu inconsciente em colapso? Ou era real? Tão real quanto a cama onde eu estava deitada? E se fosse real… por quê? Por que eu? Por que voltar?

A história que acabei de lhe contar, sobre o não-lugar e o encontro, é redigida muito tempo após o acontecido, filtrada pela compreensão e pelas memórias que o tempo, pacientemente, devolveu à superfície. Mas, naquele momento, nos meses, anos, de recuperação, eu vivia num estado de suspensão. Eu não sabia se era uma louca que sobreviveu ou uma escolhida que despertou para algo maior.

Conforme o tempo passava, meu corpo, em sua sabedoria silenciosa, começou a se curar. O paladar voltou, trazendo de volta o prazer de uma fruta. A audição limpou. A capacidade pulmonar expandiu. A memória se tornou uma grande amiga novamente. Mas as dúvidas espirituais não cessaram; elas cresceram, ocupando o espaço que a dor física deixava vago. E quanto mais eu procurava respostas na medicina ocidental, mais o mistério se aprofundava.

Voltei aos meus livros. Não aos de patologia, mas aos de filosofia. Aqueles mesmos volumes que me sustentaram na adolescência, agora lidos com olhos de quem viu o outro lado.

Reencontrei termos que, antes, eram conceitos intelectuais, e agora pareciam instruções de sobrevivência tatuadas na minha alma.

“Memento Mori” — Lembra-te da morte. Não como algo mórbido, mas como o conselheiro que te diz: “Não perca tempo com o que não é essencial.”

“Amor Fati” — Amor ao destino. Amar o que acontece, não apenas suportar. Abraçar a trama da vida, com seus nós e desvios, como necessária.

E, principalmente, “Memento Vivere” — Lembra-te de viver.

Reli O Pequeno Príncipe. Livro que por toda minha vida não passava de uma fábula infantil, mas que agora parecia um tratado místico disfarçado. A raposa, a rosa, o deserto, a serpente. Tudo fazia um sentido novo, visceral.

Certo dia, olhando para as cicatrizes invisíveis e visíveis do meu corpo, surgiu a ideia: eu precisava marcar esse retorno. Eu precisava de um lembrete permanente gravado na pele, algo que não pudesse ser lavado, esquecido ou ignorado.

Eu queria tatuar Memento Vivere. E uma arte que me recordasse do Pequeno Príncipe.

Comecei a buscar tatuadores. Vi portfólios incríveis, técnicas perfeitas, traços realistas. Mas nada clicava. Até que me deparei com o perfil de um artista chamado Monge.

Havia algo diferente no trabalho dele. Não era apenas a técnica, que era impecável. Era a energia das imagens. Havia silêncio nos traços. Havia intenção. Por algum motivo que a razão não explicava, tive a certeza absoluta: era ele.

Não era uma escolha estética. Era um chamado. Um puxão no umbigo. Uma voz sussurrando que aquele encontro não seria apenas sobre tinta e agulhas, mas sobre abrir uma porta.

Decidi falar com ele. Uma mensagem simples. Uma resposta rápida.

“Vamos conversar. Quando você pode vir ao estúdio?”


O estúdio ficava em uma rua movimentada de um bairro central, próximo a um campinho de futebol de terra batida. Enquanto eu estacionava, ouvia os gritos das crianças jogando bola, suas vozes ecoando com aquela alegria selvagem e despreocupada que só a infância possui.

A casa era térrea, simples, com uma fachada de tijolinhos e plantas penduradas na varanda. Não havia letreiros neon, caveiras ou a estética agressiva comum a estúdios de tatuagem. Se não fosse pela pequena placa de madeira na porta com o nome “Monge”, eu teria passado direto.

Entrei. Caminhava quase normalmente agora, embora cada passo ainda exigisse um micro-planeamento consciente. Minha perna esquerda falhava ocasionalmente, um lembrete sutil, mas eu havia aprendido a compensar, a dançar com a minha própria instabilidade.

Não havia recepcionista. A porta se abriu para uma sala pequena, limpa e funcional. Havia uma mesa, um computador, estantes com decorações aleatórias, e as paredes estavam cobertas de samambaias entre meio a desenhos originais. Eram obras, cada uma contando uma história silenciosa. O cheiro era de limpeza, incenso suave e café.

E então, ele apareceu, vindo de uma porta nos fundos.

O primeiro pensamento que tive foi: ele não é nada do que eu esperava. E, no segundo seguinte: ele é exatamente como deveria ser.

Eu esperava um “monge” estereotipado, talvez careca, ou um tatuador rock n’ roll coberto de piercings. Ele era menor que eu, magro, com cabelos escuros cortados num estilo simples. Vestia uma camiseta preta básica e calça jeans. Mas eram os olhos que prendiam a atenção. Olhos gentis, profundos, tranquilos, que pareciam sorrir antes mesmo da boca.

— Marina? — ele perguntou, estendendo a mão. O aperto era firme, quente, humano.

— Sim. Prazer.

— O prazer é meu. Sou o Monge. Senta, fica à vontade. Quer uma água, um café?

Sentei-me em uma das cadeiras de madeira enquanto ele se acomodava na frente do computador. Havia uma naturalidade em seus movimentos, uma ausência total de pressa ou afetação, que imediatamente acalmou minha ansiedade social.

— Então — ele começou, abrindo um arquivo em branco —, você me disse que quer tatuar Memento Vivere e o Pequeno Príncipe. Conta um pouco mais. O que você imagina? Estilo, tamanho, local…

Respirei fundo. Era hora de traduzir a alma em imagens.

— O Memento Vivere eu quero na clavícula esquerda. Perto do coração, mas visível. Delicado, mas legível. E o Pequeno Príncipe no antebraço direito. Quero a cena dele ao lado da raposa e sua rosa. Mas não quero o desenho clássico do livro, quero algo que capture a essência, a solidão e a conexão.

Ele ouvia com uma atenção absoluta, fazendo anotações mentais e rabiscos rápidos num papel. Perguntava sobre detalhes, sobre o peso da linha, sobre sombras. E enquanto conversávamos, ele começou a desenhar a arte com uma fluidez impressionante, como se estivesse apenas limpando a poeira de uma imagem que já existia.

— A tatuagem — ele disse, sem tirar os olhos da tela — não é só sobre a estética. É um ritual. É sobre carregar um talismã na pele. É um compromisso permanente com a ideia que você está gravando. Então precisa significar algo de verdade, algo que você sustente daqui a dez, vinte anos.

— Significa — eu disse, e minha voz saiu mais rouca e firme do que eu esperava. — Significa muito.

Ele parou de desenhar, girou a cadeira e me olhou nos olhos.

— Conta. Por que Memento Vivere? A maioria das pessoas tatua Memento Mori.

Engoli em seco. Aquele olhar convidava à verdade.

— É um lembrete. De que eu estou viva. De que eu deveria estar vivendo, e não apenas sobrevivendo. Eu… eu quase perdi minha vida recentemente. Estive muito perto de ir embora. E quando voltou, percebi que eu nunca tinha realmente vivido. Eu tinha passado a vida inteira lutando, me escondendo, sofrendo, tentando ser alguém. Mas não vivendo.

Apontei para o esboço das letras na tela.

— Isso é para eu nunca mais esquecer. Para eu acordar todo dia, olhar no espelho enquanto escovo os dentes e lembrar: “Marina, você está viva. Você é um milagre. Não desperdice isso com medo.”

Ele não reagiu com choque, nem com a curiosidade mórbida que eu costumava encontrar. Não fez perguntas invasivas. Apenas assentiu, com uma compreensão silenciosa e profunda, como se reconhecesse a linguagem da sobrevivência.

— E o Pequeno Príncipe? — ele perguntou, voltando suavemente ao desenho.

Um sorriso involuntário, quase infantil, surgiu no meu rosto.

— O Pequeno Príncipe me lembra de como a vida deveria ser vista. Com os olhos da alma, não com os olhos de pessoas grandes. Ele me lembra da inocência. De como tudo é novo, mágico e cheio de possibilidades quando somos crianças. Como adultos, a gente esquece. A gente complica. A gente perde a capacidade de se maravilhar com uma rosa ou com uma raposa. A gente só vê números, preços, obrigações.

Olhei para o desenho tomando forma.

— Eu quero recuperar isso. Quero olhar para o mundo com aqueles olhos novamente. Olhos que veem o invisível.

Ele parou novamente. O silêncio na sala era confortável, denso.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” — ele citou, suavemente. — É sobre conexão, não é? Sobre o laço que criamos. A rosa do Pequeno Príncipe era igual a milhões de outras rosas no mundo. Mas para ele, ela era única no universo. Por quê? Porque ele gastou tempo com ela. Porque ele a protegeu do vento. Porque ele a ouviu reclamar. Ele se doou a ela.

Senti um arrepio.

— Exatamente — sussurrei. — É sobre dar valor. Sobre tornar o comum sagrado através do amor.

— Você entende — ele disse, e não era uma pergunta. Era uma constatação.

— Eu estou tentando entender — corrigi. — É por isso que preciso disso na minha pele.


Continuamos conversando enquanto ele finalizava os desenhos. O papo fluiu naturalmente das referências visuais para a filosofia, para a vida, para a busca de sentido. Havia uma sintonia fina entre nós, uma frequência compartilhada.

— Você frequenta alguma religião, Marina? — ele perguntou casualmente, enquanto ajustava a sombra da raposa.

— Não tenho uma religião fixa — respondi. — Fui criada católica, mas me afastei. Gosto muito do espiritismo, me dá respostas lógicas. Às vezes vou em cultos evangélicos, sinto a energia da fé deles. Sou uma buscadora, acho. Bebo onde tem água limpa. E você?

Ele sorriu, um sorriso enigmático e caloroso.

— Eu não sigo dogmas. Tenho uma visão universalista. Acredito que a verdade é uma montanha e as religiões são apenas trilhas diferentes que levam ao mesmo topo. Já estudei muito, já busquei em muitos lugares. Inclusive — ele pausou, olhando para mim com um brilho divertido nos olhos —, eu estudei para ser padre quando era mais jovem. Seminário e tudo.

Meus olhos se arregalaram. Olhei para as tatuagens nos braços dele.

— Sério? Padre?

— Sério. Anos de seminário. Latim, teologia, patrística. Eu estava convencido de que aquele era meu caminho. Eu queria servir a Deus. Mas com o tempo… comecei a ver as rachaduras. Não na fé, mas na instituição. No ego humano. Na política. Vi como a religião organizada muitas vezes se torna um muro entre o homem e Deus, em vez de uma ponte. Vi julgamento onde deveria haver acolhimento. Vi medo onde deveria haver amor. E percebi que eu não cabia naquela caixa. Que Deus era grande demais para caber numa hóstia ou num livro de regras.

Havia uma vulnerabilidade na voz dele que me tocou. A decepção de quem amou e precisou partir para não morrer sufocado. Eu conhecia aquela sensação.

— E você encontrou? — perguntei. — Outro caminho?

— Encontrei. Ou ele me encontrou. Hoje frequento uma comunidade ecumênica de cura, um santuário no meio da natureza.

A frase pairou no ar. Era nova para mim.

— Uma comunidade? Como funciona?

Ele largou a caneta digital e se virou para mim, a expressão tornando-se séria e reverente.

— É um espaço de busca simples, de recolhimento, no coração de uma área rural preservada. Trabalhamos com a força do silêncio, da meditação profunda e da música. Cantamos hinos, fazemos vigílias e buscamos a cura através da oração e da conexão direta com a terra, longe do barulho da cidade. É uma prática espiritual muito pura.

Ele fez uma pausa, medindo minha reação.

— É sobre conexão direta, Marina. Sem intermediários. É sobre se conectar com o Criador, com a natureza, consigo mesma e com os outros. É sobre cura profunda. Sobre olhar para dentro, acalmar a mente e limpar o que precisa ser limpo. É sobre Amor.

Cada palavra que ele dizia ressoava em mim como um diapasão. Era estranho. Eu nunca tinha ouvido falar daquilo, mas meu corpo reagia. Um calor no peito. Um formigamento nas mãos. Uma sensação de reconhecimento. Como se ele estivesse me lembrando de um endereço que eu tinha anotado em algum lugar e perdido.

— Parece… intenso — eu disse, a palavra parecendo pequena para a vibração que eu sentia.

— É mais do que intenso — ele sorriu. — É transformador. É a coisa mais séria e bonita que já encontrei. Mas não é para todo mundo. O silencio exige coragem. Exige entrega. Exige disposição para olhar para dentro, encarar as próprias sombras, deixar o velho eu ir embora e renascer.

Olhei para ele. Morrer e renascer. Eu sabia algo sobre isso.

— Eu poderia… eu poderia conhecer? — A pergunta saiu da minha boca antes que eu pudesse censurá-la.

He me olhou profundamente, como se estivesse avaliando minha aura, minha prontidão.

— O sítio é aberto a todos os buscadores sinceros — ele disse. — Se você sentir o chamado no seu coração, se sentir que é para você, as portas estarão abertas. Entra em contato comigo perto da data do próximo encontro de meditação. Eu te explico tudo, te preparo, tiro suas dúvidas. Mas não vá por curiosidade turística. Vá se sua alma pedir.

— Eu vou pensar. — prometi.

Mas, no fundo, eu já não precisava pensar. Meu coração já tinha feito as malas.


Ele terminou os desenhos. Virou o monitor para mim.

Eram perfeitos. O Memento Vivere em uma fonte elegante, fina como um fio de cabelo, mas forte. O Pequeno Príncipe no seu asteroide, a rosa protegida pela redoma de vidro, a raposa deitada aos pés dele, olhando para o horizonte. Tudo capturado com uma simplicidade traidora, cheia de emoção.

— É exatamente isso — sussurrei, sentindo os olhos marejarem. — É a minha história.

— Então vamos gravar essa história.

Ele imprimiu os stencils e me levou para a sala de procedimento. O cheiro de álcool e desinfetante me lembrou o hospital, mas aqui a energia era de criação, não de doença.

Sentei na cadeira. Ele preparou a bancada com a precisão de um cirurgião e a reverência de um sacerdote. Luvas, agulhas, tintas. O zumbido da máquina de tatuagem encheu a sala, um som constante, elétrico.

— Vamos começar com oMemento Vivere — ele disse. — Clavícula é um lugar sensível, perto do osso. Respira fundo.

Ele limpou minha pele, aplicou o decalque. Olhei no espelho. As palavras roxas estavam lá, gritando silenciosamente.

— Pronta?

— Pronta.

A primeira picada da agulha foi um choque agudo, quente. Uma dor fina que vibrava nos dentes. Mas não era uma dor ruim. Era uma dor de inscrição. De estar escrevendo algo novo no livro do meu corpo.

Fechei os olhos e me concentrei na respiração. A dor me ancorava no presente. Eu não estava no passado, nem no futuro. Eu estava ali, sentindo cada traço, cada curva das letras sendo eternizada na minha pele.

O silêncio entre nós era confortável. O Monge trabalhava focado, imerso em sua arte. Depois de alguns minutos, ele quebrou o silêncio, sua voz misturando-se ao zumbido da máquina.

— Sabe por que me chamam de Monge?

— Não. Por quê?

— Porque eu passei a vida inteira buscando. Buscando Deus em mosteiros, em livros, em rituais, em montanhas. Eu queria ser santo. Queria ser puro. E acabei descobrindo que a busca em si era o caminho. Que eu não precisava me isolar do mundo para encontrar o sagrado. Que o verdadeiro monge não é aquele que foge da vida, mas aquele que mergulha nela.

Ele limpou o excesso de tinta com um papel toalha.

— O sagrado está no cotidiano, Marina. Está em fazer um café com amor. Em ouvir um amigo. Em tatuar uma pele com respeito. Transformar cada ato em oração. Isso é ser monge. Viver no mundo, mas não ser consumido por ele.

As palavras dele caíram no meu coração como sementes em solo fértil. Era exatamente o que eu precisava ouvir. Eu não precisava fugir para uma caverna. Eu podia encontrar Deus nos corredores do hospital, em casa, no trânsito, na minha própria pele.

— Eu entendo. murmurei. — Eu quero viver assim também.


Quarenta minutos depois, o Memento Vivere estava pronto. Olhei no espelho. A pele estava vermelha, inchada, mas as letras negras estavam lá, nítidas, definitivas.

Lembra-te de viver.

Senti uma onda de emoção. Era um pacto. Um contrato assinado com sangue e tinta comigo mesma.

— Vamos para o braço? — ele perguntou.

— Vamos.

A tatuagem do Pequeno Príncipe era maior, mais complexa. Exigia mais tempo, mais dor. Mas eu estava entregue. Enquanto ele sombreava a raposa, eu falei:

— Sabe o que mais me toca nesse livro? O Pequeno Príncipe teve que sair do planeta dele. Teve que deixar a rosa. Teve que viajar pelo universo, conhecer reis, vaidosos, bêbados, geógrafos… teve que ver o absurdo do mundo adulto. Teve que sentir a solidão do deserto e encontrar a raposa para entender o que é cativar.

Fiz uma pausa, sentindo a agulha vibrar no osso do pulso.

— Ele precisou da distância. Precisou da perda para entender o valor do que tinha. Se ele tivesse ficado no asteroide B612, ele nunca teria amado a rosa de verdade. Ele só a teria suportado.

— Como você — o Monge disse, sem levantar a cabeça.

— Como eu — concordei, a voz embargada. — Eu precisei chegar muito perto da morte para aprender a valorizar a vida. Precisei perder tudo — identidade, família, esperança — para descobrir o que realmente importa. Precisei ir até o fim do mundo, o abismo da não existência, para poder voltar e amar a minha rosa.”

Ele parou a máquina. O silêncio supremo foi ensurdecedor. Ele me olhou com uma seriedade luminosa.

— Você sabe que isso é uma bênção, não sabe? É um preço alto, Marina, eu sei. Mas a maioria das pessoas passa a vida inteira dormindo. Elas nascem, crescem, pagam contas e morrem sem nunca acordar, sem nunca ver além da superfície. Você foi acordada à força. Foi traumático. Mas agora você vê. Seus olhos estão abertos. Não desperdice isso. Não deixe a rotina fechar seus olhos de novo.

— Não vou. — prometi, e era uma promessa para ele, para mim e para a Mulher de Branco. — Por isso as tatuagens. Para eu nunca esquecer.

— Bom — ele sorriu, ligando a máquina novamente. — Então vamos terminar de gravar essa história no seu braço.


Quando terminamos, o sol já estava se pondo lá fora, tingindo a sala de laranja. O Monge limpou o braço, aplicou uma camada generosa de pomada e me deixou ver.

Era uma obra de arte. A rosa vermelha brilhava sob a redoma. A raposa olhava para o príncipe com aquela sabedoria triste e amorosa. E o príncipe olhava para as estrelas.

Chorei. Não consegui evitar. Chorei de gratidão por estar viva para ver aquilo. Chorei pela beleza da arte e pela beleza da vida.

— Obrigada — eu disse, abraçando-o. — Obrigada por entender. Por traduzir minha alma.

— Obrigado você — ele retribuiu o abraço, forte e fraterno. — Por confiar em mim. Por trazer essa história para a minha cadeira. Foi uma honra.

Ele me deu as instruções de cuidado, o plástico filme, a pomada. E então, tirou um pequeno cartão do bolso.

— Aqui. Meu número pessoal. Quando você quiser conhecer o sítio, quando sentir que é a hora, me liga. O próximo encontro é daqui a duas semanas. A casa está aberta.

Peguei o cartão. Era branco, simples, apenas com o nome e o número. Mas parecia pesar uma tonelada. Parecia a chave de um portal.

— Eu vou ligar — eu disse. E uma certeza gelada e excitante percorreu minha espinha. — Eu sei que vou.

Ele sorriu, encostado no batente da porta. — Eu sei também. Eu senti o chamado ecoando em você.


Saí do estúdio. A rua estava movimentada, o ar da noite começando a esfriar. As crianças ainda jogavam bola no campinho, gritando, correndo, vivendo a pura alegria do movimento.

Parei na calçada. Toquei o curativo na minha clavícula. Toquei o curativo no meu braço.

Eu estava quebrada, sim. Cheia de cicatrizes, mancando, trêmula. Mas eu estava viva. E pela primeira vez, eu não estava apenas sobrevivendo. Eu estava começando a viver.

˜Memento Vivere, Marina.˜

E eu fui para casa, com o cartão do Monge queimando no meu bolso e uma nova estrela brilhando no meu céu interior.

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